É possível compreender a 70ª. Semana de Daniel ?

Entender 69 das setenta semanas de Daniel não é difícil, entretanto o problema da profecia do grande estadista judeu, que viveu os últimos anos do cativeiro israelita na Babilônia, encontra-se na interpretação da última semana.

Ao estudar a referida profecia durante dois anos percebi que o grau de dificuldade é muito grande se for considerado o pressuposto de que a última semana está reservada para o povo judeu.

Ocorre que o versículo 24 do capítulo 9 de Daniel expõe com clareza que o objetivo da profecia está diretamente ligada àquele que faria cessar a transgressão, daria fim aos pecados, traria justiça eterna, ungiria o Santo dos Santos e selaria a visão e a profecia.

A Profecia, sem dúvida alguma aponta para a obra redentora do Messias.

O versículo 25 aponta o termo inicial, as primeiras sete semanas e as outras sessenta e duas semanas, onde seria reconstruída a cidade em tempos angustiosos.

Não há dúvida entre os teólogos, que o período denominado semanas, trata-se especificamente de semanas de anos, portanto sessenta e nove semanas correspondem a 483 anos.

A dúvida porém está no cômputo inicial e uma discrepância histórica de datas, calendários lunares e solares e diversas outras implicações apontam que a ordem para a reconstrução dos muros pode ter sido realizada entre os anos de 455/457 A.C  e/ou 440/445 A.C.

Outro problema se impõem: Há um espaço de tempo que corresponde a um interregno indefinido, que está atrelado ao início da era cristã.

O erro de cálculo de Dionísio impõem dúvidas acentuadas acerca do período exato do termo inicial da contagem da ordem expedida para a reconstrução dos muros de Jerusalém, entretanto, essa dúvida parece que não alcançou os povos do primeiro século depois de Cristo, pois não foram poucos os astrônomos, tal como os magos do oriente, que vislumbravam o nascimento do Messias para o período apontado na profecia de Daniel.

Um certo rabino, diante da precisão da profecia de Daniel, chegou até mesmo a amaldiçoar aqueles que calculavam a data do advento do Messias (https://pontodevistacristao.weebly.com/a-maldiccedilatildeo-rabiacutenica.html), sendo que tal fato somente se explica pela forma inequívoca do apontamento da profecia de Daniel ao advento do Messias, sendo público e notório que o judaísmo, até nossos dias, com exceção daqueles que professam a fé no cristianismo, não reconhecem Jesus Cristo como o Senhor.

Assim, após as sessenta e nove semanas o Messias seria retirado (Daniel 9:26) ou seja, não há uma outra forma autorizada na interpretação deste texto que não seja a de reconhecer que após 69 semanas, necessariamente, ter-se-á  o início da septuagésima semana.

Não há um versículo sequer que autorize uma interpretação diversa deste entendimento, seja na interpretação gramatical, histórica, sistemática ou idealista.

Somente a interpretação futurista e literal vislumbrou uma hipótese de um período de interregno entre a 69ª. semana e a 70ª. semana, sob a alegação de que se o profeta estivesse mencionando a última semana neste versículo, o próprio texto apresentaria a forma escrita “ e na 70ª semana” e não “ e depois” (Dn 9:26).

A interpretação futurista, não obstante a sua popularidade, não apresenta elemento de sustentação lógico, pois após a 69ª. semana vem, necessariamente a 70ª. semana e além do mais, se estivesse claro que a profecia prenunciaria um intervalo entre a 69ª. e a derradeira semana, certamente tal fato restaria inscrito, apontado, mencionado ou, de alguma forma, apresentado dentro deste contexto ou de algum outro contexto profético correlato.

Ocorre que, mesmo que todas estas incongruências acima apontadas, acerca deste “suposto intervalo”,  sejam superadas, o contexto da profecia de Daniel, considerando o enunciado profético (a partir do versículo 24), não permite que a ação do Messias, de purificar o homem do pecado, seja aplicada parcialmente.

A Bíblia demonstra em todo o Novo Testamento, que a obra de Cristo resgatou o homem do pecado e foi suficiente para lhe conceder a Salvação.

Todas as atribuições mencionadas no versículo 24, são exclusivas da pessoa do Messias que, com o seu sacrifício na Cruz do Calvário, conquistou ao homem o direito de adquirir a vida eterna.

Cristo deu fim aos pecados, trouxe justiça, foi ungido, nos transformou em raça eleita, sacerdócio real, nação santa, propriedade exclusiva do Senhor.

A obra do Messias foi completa.

Não há a necessidade de se realizar um juízo investigativo, para que, no Céu, ocorra um sacrifício de Cristo como sacerdote pelos pecados registrados, tal como sugerido por Ellen G. White em seu discurso que confunde 2.300 tardes e manhãs, com a profecia das  setenta semanas.

A obra de Cristo foi completa e não pode ser analisada em conjunto com a inovação do pensamento de uma profecia frustrada, que previa a volta de Cristo para o ano de 1844 ou ainda, que não valoriza a eficácia do sacrifício expiatório do Messias em sua primeira vinda, apresentando uma visão futurista, quase que ilusionista, que entende o complemento da obra de Cristo para a sua segunda vinda.

Assim, a teoria do juízo investigativo e as pressuposições dispensacionalistas, apresentam visões manifestamente equivocadas acerca da obra expiatória, cumprida pelo Messias em sua primeira vinda.

A profecia aponta de forma clara, para todas as atribuições da pessoa do Messias.

Este sempre foi o entendimento dos teólogos que tem a teologia histórica como referência.

Só existe uma forma de apartar a última semana da profecia de Daniel do contexto da primeira vinda do Messias:

  1. Identificando uma forma diferenciada de Deus tratar com a Nação de Israel.

Ocorre que o Apóstolo Paulo deixa registrado de forma bem clara que Deus uniu os gentios e os judeus que têm Cristo como  o seu Senhor, em um só povo, formando por consequência sua Igreja, o Israel verdadeiro ( Efésios 2:11 e segs).

A promessa fora feita para Abrãao e o seu descendente (Cristo), não para os descendentes judeus ( Gálatas 3:16).

Aos judeus de carne, resta tão somente a promessa de participação no último grande avivamento, tal como exposto em Romanos 11.

Assim, retirando as arestas e pressupostos judaizantes dispensacionalistas, impregnados na cultura pentecostal, da qual este subscritor faz parte,  fácil se torna reconhecer que a profecia de Daniel, ao ser considerada de forma linear, alcança o seu cumprimento com o advento e a morte do Messias.

No versículo 27 resta demonstrado que ele fará uma aliança com muitos por uma semana, todavia, no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação.

Esta Aliança fora firmada no Sangue de Cristo, no Calvário, na metade da última semana.

De acordo com a maioria dos teólogos e historiadores o Ministério de Cristo teve duração de 3 anos e meio.

Cumpre lembrar que Daniel profetizou a aliança na metade da última semana que possui 7 anos.

A aliança fora realizada na metade da última semana ( 3 anos e meio do ministério de Cristo na terra).

E os últimos três anos e meio ?

É necessário analisar a última metade desta semana não somente sob o aspecto temporal, muito embora, ao final de septuagésima semana tenha ocorrido um dos fatos abaixo:

  1. A dispersão dos cristãos de Jerusalém para os confins da terra;
  2. A morte de Estevâo;
  3. O início do ministério de Paulo direcionado aos gentios.

A última semana marca, ao mesmo tempo o selo da profecia para o povo de Daniel e a eficácia da Aliança realizada entre o Messias e o Israel de Deus, que é a Igreja.

A metade da última semana corresponde ao mesmo tempo, o período de cumprimento do enunciado profético aos judeus e o período de peregrinação do Israel de Deus sobre a Terra.

Uma visão linear do capítulo 12 de Apocalipse aponta para esta direção.

O versículo 6 de Apocalipse aponta para uma visão histórica onde a mulher (Israel = Povo de Deus) é alimentada durante 1260 dias.

Essa mulher é alimentada durante 3 anos e meio.

Outro detalhe: Essa mulher é alimentada após o seu filho ( Jesus = descendente de Abraão, Isaque e Jacó) ser arrebatado para Deus, até o seu trono.

Assim, após a ressurreição do Messias, a mulher (Povo de Deus) será protegida por Deus que já tem lugar preparado para ela.

Note que o estilo literário apocalíptico ainda anuncia a guerra e a derrota de Satanás e seus anjos que batalhavam contra Miguel, tendo sido precipitados para a terra, pois no céu não se achou mais lugar para eles.

Enquanto isso, até o aparecimento da Besta, no capítulo 13 do Apocalipse, o povo de Deus (Igreja) estará na Terra, guardados por Deus, durante os 1260 dias, que corresponde a metade da 70ª. semana de Daniel.

Após isso, no capítulo 13 de Apocalipse, surge o Anticristo, e na profecia de Daniel, o Assolador, nas asas das abominações.

A invasão romana, com o Imperador Tito, nos anos 70, destruindo o Templo Judeu, configura, em miniatura, uma espécie de final dos tempos, tanto é que Cristo, no capítulo 24 de Mateus, ao profetizar a destruição do templo, correlaciona, propositadamente, tais fatos com o final dos tempos.

Assim a profecia das 70 semanas é o retrato fiel da projeção histórica do enunciado de uma profecia direcionada a todo o Israel (Povo de Deus) e não somente ao grupo étnico da comunidade judaica.

Soli Deo Gloria

Johnn Robson Moreira

 

 

 

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