A SINGULARIDADE DA GRAÇA DE DEUS

Sob o ponto de vista jurídico não há condições de apreciar a graça sob as diversas nomenclaturas propostas pelas doutrinas teológicas que abordam questões atreladas a soteriologia.

A graça de Deus concedida aos homens diz respeito tão somente a graça salvífica, aquela que Deus concedeu aos seus filhos conforme prescreveu o apóstolo Paulo em Efésios 2:8 (Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus).

A graça é um instrumento jurídico concedido a uma pessoa, que tem por finalidade extinguir a punibilidade de alguém.

Na Bíblia a demonstração da Graça de Deus para com os homens deu-se por intermédio do cumprimento da pena, que deveria ser aplicada aos pecadores, que fora integralmente satisfeita por Jesus Cristo, na Cruz do Calvário.

A pena fora cumprida pelo mediador substituto dos pecadores, Jesus Cristo, no lugar de homens condenados pelo delito do pecado, em virtude da condenação oriunda do pecado original, que acompanha a natureza de todos os homens, que provocou o que a doutrina reformada entendeu por depravação total, tendo como base o relatado pelo Apóstolo Paulo em Romanos capítulo 3, e especialmente o versículo 23 no qual consta a Sentença “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”.

No que tange a este aspecto não há controvérsia entre os estudiosos, pois a Graça de Deus, somente ela, é capaz de nos conceder a Justificação de nossos pecados.

As linhas acima trouxeram conceitos cuja pressuposição deste subscritor é necessária para a conclusão acima.

Tratam-se dos seguintes conceitos que devem ser estudados, a fim de que a compreensão do texto seja completa:

  • Pecado original;
  • Morte espiritual ( Afastamento de Deus);
  • Morte, aspecto legal ( Iniciado na Sentença decretada no Éden contra o homem);
  • Morte física (consequência dos itens 2;3);
  • Depravação Total;
  • Sacrifício Vicário do Mediador (Substitutivo);
  • Cumprimento da Pena – Satisfação da Execução da Pena (Morte e Ressurreição de Cristo);
  • Concessão da Graça (Extinção da punibilidade aos que crerem – Favor imerecido – Efésios 2:1-10).

 

Não havendo dúvidas no que tange a Graça Salvífica, o próximo passo estará atrelado a apreciação de duas nomenclaturas de “Graça” que os teólogos utilizam o seu complemento de forma inadvertida.

 

Graça Comum

A doutrina da Graça Comum, muito embora seja reconhecida há vários Séculos pela sua coerência teológica, padece tecnicamente, em seu aspecto jurídico de uma compreensão estritamente bíblica.

Do ponto de vista teológico a Doutrina atribui um outro significado ao termo graça, pois considera que Deus concede dons para todos os homens indiscriminadamente, em todos os aspectos, sejam eles, físicos, morais, artísticos, sociais, religiosos, etc.

O Salmo 69:18 explicita bem essa concessão de dons aos homens e até mesmo aos rebeldes.

Cumpre salientar que não se trata tão somente dos dons, mas também da natureza e de todos os elementos da criação.

Portanto, muito embora o sentido de graça comum seja muito bem compreendido pelos estudiosos acerca do que efetivamente essa “graça” significa, tecnicamente não se trata de graça, mas sim de dons diversos, atrelados ao dom maior que Deus concede aos homens, que é a vida.

Não há que se falar em Graça Comum, quando visualizamos as bênçãos diversas concedidas a justos e injustos que vivem sobre a Terra, pois na verdade tais bênçãos correspondem a dons e benefícios de Deus concedidos indiscriminadamente à todos os homens.

A diferença é sutil, todavia, do ponto de vista hermenêutico, introduzir tais benefícios, dons, presentes como graça, seria acrescentar um significado para um termo que desempenha uma função estritamente jurídica.

O pecado original afetou o homem em todos os seus sentidos, todavia não afetou a benignidade de Deus para conceder Dons sem arrependimento para todos os homens, sejam eles bons ou maus no aspecto cultural e espiritual, ou seja, muito embora o homem esteja depravado totalmente no que tange à toda extensão de seus sentidos, Deus não concedeu uma Graça comum à todos no sentido de extinguir a punibilidade dos direitos inerentes à vida dos homens, ao contrário, a Graça é concedida exclusivamente àqueles que reconhecerem a Cristo como Senhor e Salvador e, por conseguinte, alcançarem a Salvação de suas almas, nesse aspecto portanto a Graça sempre desempenha uma função especial, Salvífica.

Graça Preveniente –

Na mesma esteira do que fora anotado nas linhas acima, há de se verificar por consequência a impossibilidade de utilizar-se de uma “graça preveniente” com o aspecto flagrantemente antecipatório.

A graça preveniente padece de maiores inconsistências pois concede ao homem uma capacidade que somente o Espírito Santo pode conceder, que é a capacidade para entender o seu estado de pecaminosidade.

Não há como conciliar juridicamente o termo graça (favor imerecido e/ou extinção de punibilidade) com a proposta teológica da graça preveniente (restauração da capacidade do homem agir com livre arbítrio no que tange a seu destino eterno).

Todos os textos bíblicos que visam dar suporte a esse entendimento de uma graça oriunda da presciência de Deus à condição de pecaminosidade do homem, devem ser analisados à luz dos capítulos 3;5;7 de Romanos, onde o Apóstolo Paulo apresenta a real condição do pecador e sua incapacidade de escolher algo contrário a sua natureza.

Romanos capítulo 7, explicita de forma inequívoca a incapacidade do homem em exercer livremente o seu arbítrio.

O termo livre arbítrio, a bem da verdade, nem sequer é encontrado nas escrituras e quanto ao assunto, diversos teólogos apontam a diferença entre os termos livre-arbítrio e livre-agência.

No que diz respeito ao aspecto jurídico, elevar o termo Graça para uma condição preveniente, que viabilize a escolha humana contrária a sua natureza pecaminosa, somente pode ser explicado por condições atreladas aos aspectos históricos que são responsáveis pelo desenvolvimento do conceito.

É notório o papel histórico desempenhado por John Wesley para o corpo de Cristo, bem como o seu alinhamento teológico ao arminianismo.

Historicamente o desenvolvimento da teologia da graça preveniente, deu-se em um período em que a Igreja Anglicana, concentrava-se no formalismo de uma doutrina engessada, que flertou com o arianismo, causando indignação nos verdadeiros cristãos da época de Wesley.

Há de se ressaltar, todavia, que a derrocada da doutrina reformada à época não estava perdida no todo pois Whitfield, também Metodista, desempenhou diligentemente seu ministério, na mesma época do Pastor John Wesley.

O entusiasmo da pregação Wesleyana contagiou a Igreja Inglesa, e por extensão a Europa e posteriormente a América e o pensamento da doutrina ortodoxa, à época, representada por reformados nominais cedeu espaço para o reconhecimento da doutrina da Graça Preveniente.

Com o decorrer do tempo porém, o racionalismo e o pensamento filosófico modernista também influenciou a teologia neste aspecto soteriológico que passou paulatinamente a amenizar os efeitos do conceito de depravação total, que passou a ser substituído pelo regresso do conceito de livre arbítrio, propagado à exaustão, principalmente em nossa época, pós moderna, influenciada por Nietze, Gramsci, Descartes e outros pensadores.

Há de se anotar entretanto que o presente trabalho não está atrelado ao reconhecimento do papel desempenhado pelos evangelistas do passado ou do presente, tão somente visa estabelecer o que a Bíblia apresenta como Graça, que por questões históricas, tomou o contorno indevido na seara da Igreja Cristã no decorrer dos anos, prejudicando o entendimento correto de um termo precioso, que está à disposição daquele que crê na pessoa de Jesus Cristo, mas que está umbilicalmente ligado ao seu aspecto jurídico.

Acerca da Graça preveniente diversos outros tópicos poderiam ser aqui apresentados, todavia, o objeto do presente está relacionado tão somente ao aspecto jurídico e neste ponto afasta-se do termo Graça não somente a graça preveniente, mas também a graça comum como anteriormente apresentado.

A graça preveniente originou outros termos oriundos do pensamento desenvolvido neste entendimento, tais como graça subsequente, graça convencedora, graça justificadora, graça santificadora, etc.

Nenhum destes desdobramentos contemplam o significado jurídico da palavra graça, pois na verdade o termo inicial, que justificaria a ocorrência da graça subsequente, convencedora, justificadora e santificadora derivam de uma graça que padece de exatidão conceitual, que é a graça preveniente.

Esse entendimento de graça preveniente e graça comum, carece ainda de um outro requisito jurídico que afasta a conceituação de graça para as circunstâncias descritas.

A graça é um benefício jurídico concedido individualmente, tal como a Salvação, onde Deus atua individualmente, trabalhando e convencendo cada coração.

Não se pode falar em graça concedida de forma coletiva pois nesse caso estaríamos, tecnicamente diante do Indulto.

O aspecto coletivo de referência bíblica está, por vezes, atrelado ao termo eleição, em algumas referências ao povo de Israel.

Há portanto um problema conceitual no uso abusivo da expressão Graça e nos seus diversos desdobramentos, utilizados com atecnia acentuada.

Não seria necessário recorrer de forma tão aprofundada ao significado jurídico da expressão Graça, para concluir da forma que está acima exposto, pois a palavra, teologicamente está ontologicamente ligada ao sentido jurídico, pois graça é um favor imerecido.

Tal graça é concedida ao homem por determinação Divina e visa trazer Salvação ao pecador.

No que tange a questão da Graça Irresistível há de se pontuar que juridicamente não ocorre problema algum no complemento do termo Graça, pois a irresistibilidade está atrelada ao aspecto pessoal do homem, não alterando o sentido jurídico do termo, tal como ocorre com a graça preveniente, justificadora, comum etc.

Portanto a Graça apresentada nas escrituras é a graça concedida por Deus aos homens (favor imerecido) para que, por intermédio da confissão de pecados, haja o alcance da Salvação.

Johnn Robson Moreira

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s