Calvinismo e Arminianismo – A dificuldade de compreender o paradoxo da Soberania de Deus e da liberdade do homem.

“ E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído” !    (Lucas 22:22).                                              

 

O próprio Cristo, nesta passagem específica, esclareceu a tormentosa questão relacionada entre a Vontade de Deus e a Liberdade da ação humana, que fomenta uma parte do debate entre Calvinistas e Arminianos.

Na primeira parte do versículo verifica-se com clareza que estava determinado, pelo próprio Deus, que o Filho do homem (Jesus Cristo) seria traído.

Tratava-se sem dúvida alguma da aplicação estrita do cumprimento de uma determinação Soberana de Deus em relação ao que ele prescreveu sobre a vida do traidor Judas.

O próprio Deus determinou e utilizou profetas no Antigo Testamento para vaticinar que o seu Filho seria traído.

Quanto ao referido ponto não há dúvidas, entretanto o mesmo versículo em sua segunda proposição apresenta a seguinte sentença:

“ … mas ai daquele homem por quem é traído“!

A segunda parte do versículo trata da responsabilidade do traidor.

Este ato de traição seria passível de juízo, punição, castigo, revelado na expressão “…ai daquele homem …” .

A escritura é clara ao afirmar que Judas poderia ter agido diferentemente, pois ouviu do próprio Cristo que aquele que o traísse seria devidamente castigado.

A desfaçatez de Judas porém restou inequivocamente demonstrada no registro realizado no versículo 25 do capítulo 26 de Mateus, onde consta que este traidor teve a coragem de inquirir o próprio Cristo, acerca da traição.

Assim, este versículo da Bíblia aponta a diretriz para uma apreciação direta da Soberania de Deus e da Liberdade de escolha ou de ação do homem.

Depreende-se da leitura do referido versículo que Deus é Soberano e que o homem é responsável pelos seus atos, tudo isso ao mesmo tempo.

A liberdade do homem não afeta a soberania de Deus.

O exercício da soberania de Deus não acarreta ao homem a obrigatoriedade de agir conforme os seus desígnios, pois o ser humano desfruta de liberdade para agir.

Pois bem, por mais espantoso que possa parecer, a Soberania de Deus e a liberdade de agir do homem coexistem.

A nossa cultura todavia é fortemente  influenciada pelos princípios iluministas que apregoam uma racionalidade mecanicista, que, quando busca harmonizar conceitos lógicos (sob a visão cultural do ocidente) com a verdade bíblica, encontra demasiada dificuldade.

Por tal razão os remonstrantes (seguidores de Jacob Armínius) que optaram por priorizar a condição da liberdade humana em detrimento da Soberana vontade de Deus, desenvolvendo inclusive o postulado da doutrina da graça prevista ou preveniente, adotam em suas discussões uma proposta teológica fundamentada em uma perspectiva que por vezes tende a fundamentar suas conclusões sob uma base racionalista, alicerçada na filosofia de René Descartes (1596-1650), Spinoza (1632-1677), Leibniz (1646-1716), Friedrich Hegel (1770-1831), etc … .

Os ultra calvinistas, por sua vez, ao apontar a Soberania absoluta de Deus em todos os aspectos da vida humana, desprezam a liberdade do homem e alinham o seu pensamento ao anacronismo de um raciocínio medieval, que conduz a conclusão de que Deus seria um ente espiritual autoritário em sua essência.

No entanto, há de se fazer Justiça a interpretação Reformada clássica, que, mesmo diante das barreiras do racionalismo pós moderno que aproxima o arminianismo atual do teísmo aberto, e do ultra conservadorismo religioso dos radicais calvinistas,  sustenta a verdade Bíblica exposta com clareza nas escrituras, em estrita observância ao que dispõe a Confissão de Fé de Westminster.

Admitir que Judas cumpriu automaticamente uma determinação de Deus, seria equivaler a afirmar que Deus seria responsável pelo mau, pela traição ou o pecado propriamente dito, tal fato afasta-se completamente da diretriz apontada na Bíblia.

Todavia ignorar a determinação pretérita de Deus em relação ao que aconteceria com Cristo, seria como considerar o imponderável naquilo que motivou a traição de Judas. O próximo passo seria abrir os braços para adotar o teísmo aberto como filosofia de vida.

Neste aspecto, os termos do item I do Capítulo III da mencionada confissão de fé é insuperável, no que tange a fidelidade na interpretação sistemática, gramático-literal do texto bíblico.

CAPÍTULO III
DOS ETERNOS DECRETOS DE DEUS

  1. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.

– Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34  ”.

 

Deus é Soberano e o homem é livre em suas escolhas.

Deus é Soberano na determinação de seus decretos e ao mesmo tempo o homem desfruta de liberdade e é o responsável direto por suas escolhas.

A tensão teológica está estabelecida não por causa de uma incongruência ou antinomia, na verdade o que dificulta o entendimento e a compreensão completa dessa verdade bíblica, é o desenvolvimento do raciocínio intelectual e social, imposto pela cultura ocidental, que não admite o paradoxo das escrituras que revela a Justiça, a Soberania de Deus e a liberdade de ação do homem, desenvolvida simultaneamente em sua existência.

Soli Deo Gloria

 

Johnn Robson Moreira 

 

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